Dossier
As duas insolvências, explicadas
O Boavista FC e a Boavista SAD estão em dois processos de insolvência distintos, com administradores, credores e consequências diferentes. Confundi-los é meio caminho para não perceber as notícias. Este dossier explica o que é o quê.
Actualizado a 3 de Julho de 2026 · Fontes: documentos judiciais públicos e imprensa citada na cronologia
Primeiro, quem é quem
O Clube
O Boavista Futebol Clube é a associação de sócios, fundada em 1903. É dono do património: o Estádio do Bessa, o complexo desportivo e os restantes imóveis. É nele que vivem as modalidades e a formação, e é nele que os sócios pagam quotas e votam.
A SAD
A Boavista FC, Futebol SAD é a sociedade anónima que gere o futebol profissional. O accionista maioritário é Gérard Lopez. É uma entidade juridicamente separada do Clube, com contas, credores e tribunal próprios.
Consequência prática: quando lê "o Boavista está insolvente", a pergunta certa é sempre qual dos dois? As respostas são diferentes.
Processo 1
A insolvência do Clube: o património em jogo
O Clube foi declarado insolvente e os credores, em assembleia de 5 de Setembro de 2025, rejeitaram o plano de recuperação e votaram pela liquidação. Na prática, isto significa vender o património para pagar as dívidas.
A 18 de Fevereiro de 2026, a Administradora de Insolvência prescindiu da coadjuvação da Direcção na gestão, após falhas em depósitos devidos aos credores. Desde então, a gestão corrente do Clube não está nas mãos dos órgãos eleitos. A 18 de Maio, o tribunal indeferiu o pedido da Direcção para suspender a liquidação, por não ter sido apresentado qualquer plano de insolvência.
O leilão electrónico dos imóveis terminou a 9 de Junho de 2026 com três resultados distintos: o Estádio do Bessa, isolado, não recebeu qualquer proposta (valor mínimo de 27 milhões de euros); o lote conjunto (estádio mais complexo) ficou-se pela melhor oferta de 25,7 milhões, abaixo do mínimo de 32,9 milhões; e o complexo desportivo foi vendido por 6,5 milhões de euros, a comprador não divulgado. A aceitação destas vendas cabe à comissão de credores e à Administradora de Insolvência.
O que está em jogo neste processo: o Bessa, o complexo desportivo e a própria existência patrimonial do Clube enquanto associação.
Processo 2
A insolvência da SAD: o futebol em jogo
A SAD tem o seu próprio processo. A 12 de Maio de 2026, o tribunal decretou a liquidação da sociedade, depois de o plano anterior não ter chegado a votação. A 29 de Maio, o administrador de insolvência da SAD, Reinaldo Mâncio da Costa, anunciou um novo plano de recuperação, com aprovação prevista até 31 de Julho.
Esse plano reduz a actividade desportiva ao mínimo indispensável e aposta na equipa de sub-19 em 2026/27. Entretanto, o dia-a-dia é pago com donativos: Gérard Lopez assegura mensalidades superiores a 50 mil euros, através da Administradora de Insolvência, para cobrir a despesa corrente. Em caso de incumprimento, a actividade pode ser encerrada com efeitos a 15 dias.
O que está em jogo neste processo: o futebol e a época 2026/27 de cerca de 1.500 atletas que hoje dependem destes donativos.
Onde os dois processos se tocam
Os processos são independentes, mas o destino de um condiciona o outro. Se o património do Clube for vendido em leilão, o Bessa e o complexo mudam de mãos, e qualquer futuro desportivo passa a depender de quem os comprar. Se a SAD for liquidada sem plano aprovado, a actividade do futebol pára, mesmo que o Clube sobreviva como associação.
Há ainda uma terceira frente, na cidade: a Assembleia Municipal do Porto debateu o caso a 29 de Junho, na sequência de uma petição pública com quase duas mil assinaturas, e estão em cima da mesa instrumentos como a classificação do Estádio do Bessa como bem cultural de interesse municipal. Essa via não trava, por si só, nenhuma das insolvências, mas pode condicionar o que um comprador pode fazer com o estádio.
Perguntas rápidas
Quem manda no Clube neste momento?
Na gestão corrente, a Administradora de Insolvência, com a comissão de credores. A Direcção eleita mantém-se em funções institucionais mas está afastada da gestão do estabelecimento desde 18 de Fevereiro de 2026. A Assembleia Geral continua a ser, nos termos do Art.º 58.º dos Estatutos, a autoridade suprema do Clube.
O Boavista pode acabar?
O Clube, enquanto associação de sócios, não desaparece automaticamente por causa da liquidação. O que está em risco real é o património (que pode ser vendido) e a actividade desportiva profissional (que depende do processo da SAD). Um Boavista sem Bessa e sem futebol profissional seria juridicamente possível e desportivamente uma refundação.
O que pode um sócio fazer?
Três coisas concretas: manter as quotas em dia logo que o Clube reabra as renovações (hoje congeladas), porque é isso que dá plenitude de direitos e peso formal à voz dos sócios; acompanhar os acontecimentos com informação verificada; e participar nos actos formais do Clube quando existirem. Foi por falta de quotas em dia que 130 das 270 assinaturas da petição de Abril não foram validadas.
Este dossier resume informação pública à data indicada. Datas, valores e fontes, evento a evento, na cronologia. Encontrou um erro? Escreva-nos: peticao@unidospeloboavista.pt.