Dossier

As duas insolvências, explicadas

O Boavista FC e a Boavista SAD estão em dois processos de insolvência distintos, com administradores, credores e consequências diferentes. Confundi-los é meio caminho para não perceber as notícias. Este dossier explica o que é o quê.

Actualizado a 4 de Setembro de 2026 · Fontes: documentos judiciais públicos e imprensa citada na cronologia

Primeiro, quem é quem

O Clube

O Boavista Futebol Clube é a associação de sócios, fundada em 1903. É dono do património: o Estádio do Bessa, o complexo desportivo e os restantes imóveis. É nele que vivem as modalidades e a formação, e é nele que os sócios pagam quotas e votam.

A SAD

A Boavista FC, Futebol SAD é a sociedade anónima que gere o futebol profissional. O accionista maioritário é Gérard Lopez. É uma entidade juridicamente separada do Clube, com contas, credores e tribunal próprios.

Consequência prática: quando lê "o Boavista está insolvente", a pergunta certa é sempre qual dos dois? As respostas são diferentes.

Processo 1

A insolvência do Clube: o património em jogo

O Clube foi declarado insolvente e os credores, em assembleia de 5 de Setembro de 2025, rejeitaram o plano de recuperação e votaram pela liquidação. Na prática, isto significa vender o património para pagar as dívidas.

A 18 de Fevereiro de 2026, a Administradora de Insolvência prescindiu da coadjuvação da Direcção na gestão, após falhas em depósitos devidos aos credores. Desde então, a gestão corrente do Clube não está nas mãos dos órgãos eleitos. A 18 de Maio, o tribunal indeferiu o pedido da Direcção para suspender a liquidação, por não ter sido apresentado qualquer plano de insolvência.

O leilão electrónico dos imóveis terminou a 9 de Junho de 2026 com três resultados distintos: o Estádio do Bessa, isolado, não recebeu qualquer proposta (valor mínimo de 27 milhões de euros); o lote conjunto (estádio mais complexo) ficou-se pela melhor oferta de 25,7 milhões, abaixo do mínimo de 32,9 milhões; e o complexo desportivo foi vendido por 6,5 milhões de euros, a comprador não divulgado. A aceitação destas vendas cabe à comissão de credores e à Administradora de Insolvência.

O que está em jogo neste processo: o Bessa, o complexo desportivo e a própria existência patrimonial do Clube enquanto associação.

Processo 2

A insolvência da SAD: o futebol em jogo

A SAD tem o seu próprio processo. A 12 de Maio de 2026, o tribunal decretou a liquidação da sociedade, depois de o plano anterior não ter chegado a votação. A 29 de Maio, o administrador de insolvência da SAD, Reinaldo Mâncio da Costa, anunciou um novo plano de recuperação, que reduzia a actividade ao mínimo e apostava numa equipa de sub-19 em 2026/27. Até lá, o dia-a-dia foi pago com donativos: Gérard Lopez assegurava mensalidades superiores a 50 mil euros, através da Administradora de Insolvência, para cobrir a despesa corrente.

Esse plano foi a votos. A 3 de Setembro de 2026, a assembleia de credores, iniciada a 11 de Agosto e retomada depois de suspensa, rejeitou o plano e aprovou a liquidação da Boavista SAD. A sociedade nem chegou a inscrever a equipa de sub-19 na 2.ª divisão da AF Porto. O presidente Rui Garrido Pereira falou numa perda de mais de nove milhões de euros de dívida; o passivo da SAD ultrapassa os 150 milhões.

O que ficou decidido: a via do futebol profissional do Boavista chegou ao fim. Resta apurar o que sobra da sociedade na liquidação e o destino dos activos desportivos.

Onde os dois processos se tocam

Os processos são independentes, mas o destino de um condiciona o outro. Se o património do Clube for vendido em leilão, o Bessa e o complexo mudam de mãos, e qualquer futuro desportivo passa a depender de quem os comprar. Do lado da SAD, o desfecho já chegou: liquidada sem plano aprovado a 3 de Setembro, a via do futebol profissional parou, mesmo que o Clube sobreviva como associação.

Há ainda uma terceira frente, na cidade: a Assembleia Municipal do Porto debateu o caso a 29 de Junho, na sequência de uma petição pública com quase duas mil assinaturas, e estão em cima da mesa instrumentos como a classificação do Estádio do Bessa como bem cultural de interesse municipal. Essa via não trava, por si só, nenhuma das insolvências, mas pode condicionar o que um comprador pode fazer com o estádio.

Perguntas rápidas

Quem manda no Clube neste momento?

Na gestão corrente, a Administradora de Insolvência, com a comissão de credores. A Direcção eleita mantém-se em funções institucionais mas está afastada da gestão do estabelecimento desde 18 de Fevereiro de 2026. A Assembleia Geral continua a ser, nos termos do Art.º 58.º dos Estatutos, a autoridade suprema do Clube.

O Boavista pode acabar?

O Clube, enquanto associação de sócios, não desaparece automaticamente por causa da liquidação. O que está em risco real é o património (que pode ser vendido) e a actividade desportiva profissional (que depende do processo da SAD). Um Boavista sem Bessa e sem futebol profissional seria juridicamente possível e desportivamente uma refundação.

O que pode um sócio fazer?

Três coisas concretas: manter as quotas em dia, agora que a Direcção reabriu as renovações (a campanha de sócios foi lançada a 24 de Agosto), porque é isso que dá plenitude de direitos e peso formal à voz dos sócios; acompanhar os acontecimentos com informação verificada; e participar nos actos formais do Clube quando existirem. Foi por falta de quotas em dia que 130 das 270 assinaturas da petição de Abril não foram validadas.

Num desenvolvimento relacionado, a marca "Boavista Futebol Clube" está registada no INPI em nome de uma sociedade privada dos dois dirigentes do Clube. Ver A marca, explicada.

Este dossier resume informação pública à data indicada. Datas, valores e fontes, evento a evento, na cronologia. Encontrou um erro? Escreva-nos: peticao@unidospeloboavista.pt.